poucos enganos e quatro ou cinco filmes inesquecíveis. Nunca dá para ver tudo o que queremos, mas acho que a minha amostragem desse ano foi mais sortuda que a de anos anteriores.
Entre os muito bons está o obrigatório A Fita Branca, de Michael Haneke. Mais uma vez ele retrata de maneira perfeita a crueldade e a maldade do ser humano, dessa vez numa vilazinha na Alemanha pré-Primeira Guerra Mundial. A narrativa é corretíssima, a fotografia, em preto branco, ressalta a aura de misteriosa e fria do roteiro, e os atores mirins, ótimos. Crianças de hoje com cara dos pequenos de antigamente.
London River, do francês Rachib Bouchareb mostra de forma delicada a relação de dois pais cujos filhos desapareceram nos atentados terroristas em Londres, em 2005. O diretor tem um olhar de respeito diante do sofrimento da mãe caipira inglesa (Brenda Bretlyn, ótima como sempre) e ao centrado pai africano vivido por Sotigui Kouyaté (impressionante) que é a tônica desse belo filme.

Já do alemão Fatih Akin eu já esperava um filmaço: quem viu os anteriores dele sabe que o cara entende do riscado. Mas Soul Kitchen é ainda melhor do que o esperado: uma comédia sem concessões, nem cuidados com o politicamente correto. Ainda mantém a marca de Akin, a crítica social, os problemas dos imigrantes e os desencontros entre eles. As reviravoltas na vida de Zinos, seu irmão presidiário, sua namorada e os funcionários de seu restaurante decadente são divertidíssimas.
Entre as boas surpresas, o grego Dente Canino (aterrador), o sueco Metropia (divertido, mas também perturbador) e o documentário inglês All Tomorrow Parties. Esse último me surpreendeu não apenas como peça cinematográfica, mas também pelo tema: um festival independente que acontece todo ano numa pequena cidade inglesa, sempre com a curadoria de uma banda bacana, para poucas pessoas. Meu sonho de consumo é ir num evento desse tipo.
Foram duas boas semanas. Mas a sensação desse ano foi que a Mostra encolheu, mesmo tendo mais filmes que em muitas edições anteriores. A tão falada crise da cinefilia teria afastado as pessoas, que agora conseguem baixar bons filmes das mais variadas origens em casa? Ou seria os preços altíssimos dos pacotes? O fato é que nesse ano haviam salas cheias, mas não filas quilométricas. E também menos borburinho, menos eventos paralelos. Quem se encanta pela câmera obscura vai continuar, sempre, indo ao cinema. Mas vamos ver o que nos espera o ano que vem.
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