Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Balanço geral

Eu havia me comprometido a fazer uma pequena resenha de cada filme na Mostra, como faço há vários anos. Mas o tempo, esse ente com quem eu ainda não aprendi a lidar da maneira ideal, acabou me impedindo. Foram 20 filmes, alguns grandes acertos,
poucos enganos e quatro ou cinco filmes inesquecíveis. Nunca dá para ver tudo o que queremos, mas acho que a minha amostragem desse ano foi mais sortuda que a de anos anteriores.

Entre os muito bons está o obrigatório A Fita Branca, de Michael Haneke. Mais uma vez ele retrata de maneira perfeita a crueldade e a maldade do ser humano, dessa vez numa vilazinha na Alemanha pré-Primeira Guerra Mundial. A narrativa é corretíssima, a fotografia, em preto branco, ressalta a aura de misteriosa e fria do roteiro, e os atores mirins, ótimos. Crianças de hoje com cara dos pequenos de antigamente.

London River, do francês Rachib Bouchareb mostra de forma delicada a relação de dois pais cujos filhos desapareceram nos atentados terroristas em Londres, em 2005. O diretor tem um olhar de respeito diante do sofrimento da mãe caipira inglesa (Brenda Bretlyn, ótima como sempre) e ao centrado pai africano vivido por Sotigui Kouyaté (impressionante) que é a tônica desse belo filme.



Já do alemão Fatih Akin eu já esperava um filmaço: quem viu os anteriores dele sabe que o cara entende do riscado. Mas Soul Kitchen é ainda melhor do que o esperado: uma comédia sem concessões, nem cuidados com o politicamente correto. Ainda mantém a marca de Akin, a crítica social, os problemas dos imigrantes e os desencontros entre eles. As reviravoltas na vida de Zinos, seu irmão presidiário, sua namorada e os funcionários de seu restaurante decadente são divertidíssimas.

Entre as boas surpresas, o grego Dente Canino (aterrador), o sueco Metropia (divertido, mas também perturbador) e o documentário inglês All Tomorrow Parties. Esse último me surpreendeu não apenas como peça cinematográfica, mas também pelo tema: um festival independente que acontece todo ano numa pequena cidade inglesa, sempre com a curadoria de uma banda bacana, para poucas pessoas. Meu sonho de consumo é ir num evento desse tipo.

Foram duas boas semanas. Mas a sensação desse ano foi que a Mostra encolheu, mesmo tendo mais filmes que em muitas edições anteriores. A tão falada crise da cinefilia teria afastado as pessoas, que agora conseguem baixar bons filmes das mais variadas origens em casa? Ou seria os preços altíssimos dos pacotes? O fato é que nesse ano haviam salas cheias, mas não filas quilométricas. E também menos borburinho, menos eventos paralelos. Quem se encanta pela câmera obscura vai continuar, sempre, indo ao cinema. Mas vamos ver o que nos espera o ano que vem.

No player: Oh yeah (Daft Punk)

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

Amostras da Mostra

Maradona


O diretor sérvio Emir Kusturica não escondeu sua admiração por Diego Maradona ao rodar seu documentário "Maradona". Muito pelo contrário: ele dá ao craque argentino uma aura divina mesmo quando o mostra em seus piores momentos, como a overdose que quase o matou. Mesmo assim, Kusturica consegue criar um filme competente e vigoroso, que trata não apenas da genialidade, mas também da personalidade controvertida de um dos melhores jogadores de todos os tempos. Houve quem tenha detestado, mas achei bonitas as cenas em que o diretor contrapõe trechos de alguns de seus filmes, como O dia em que papai saiu em viagem de negócios e Gato Preto, Gato Branco, à lembranças do passado de Maradona em Fiorito, no subúrbio bonaerense.


Sede de sangue


Park chan-wook é um diretor de excessos estéticos e morais, bem sabe que viu sua famosa Trilogia da Vingança. Em Sede de Sangue ele se mantém fiel ao estilo que o consagrou, mostrando personagens problemáticos e desesperados envolvidos numa trama bizarra. Também busca inspiração nos filmes gore japoneses. Dessa vez, ele mostra um padre que se oferece como voluntário na pesquisa de uma estranha doença. Acidentalmente, percebe que o sangue pode ajudar a controlá-la, tornando-se um vampiro. Nesse meio tempo se apaixona por uma moça de sua paróquia e juntos vivem uma história de amor que é impedida pela ética de cada um. Ele se nega a matar pelo sangue, e ela se torna uma predadora. O filme poderia ser mais curto - tem quase 2h30 de duração. Na meia hora final a trama esfria e o diretor dá uma esticada que acaba por comprometer o total.

Mother


Bong Joon Ho vem sendo apontado como a nova sensação do cinema coreano, desde o seu O Hospedeiro. Mother mostra a saga de uma mãe para provar que o filho doente mental não cometeu um assassinato na pequena cidade onde vivem. Joon Ho constrói uma matriarca disposta a tudo para defender a cria bem distante das tintas tradicionais do drama: o filme tem vários momentos engraçados e irônicos, como a cena em que ela conversa com duas adolescentes num ponto de ônibus. Uma boa surpresa.

O menino peixe


Lucía Puenzo tem cinema correndo em suas veias. É filha de Luiz Puenzo, diretor argentino que se consagrou com La Historia Oficial, filme que retratou os descalabros da ditadura naquele país. O pai hoje é um dos produtos da filha, que volta à Mostra com sua segunda película. Diferentemente de XXY (excelente), seu primeiro longa, O Menino Peixe busca no fantástico e na imaginação o mote para contar a história de duas adolescentes - uma jovem rica e a empregada da família - que se envolvem em um crime para poderem ficar juntas. Nem tudo são flores no caminho do casal e nem do filme, que sofre alguns deslizes narrativos. O que salva é a atuação de Inés Efron, a protagonista de XXY e de Nido Vacío, de Daniel Burman, que se confirma uma das boas atrizes da nova safra portenha.


Tokyo


Composto por três fragmentos dirigidos pelos franceses Leos Carax e Michel Gondry, além de Bong Joon-Ho, o coreano da vez, Tokyo me surpreendeu por apresentar três histórias e estilos diferentes de maneiras igualmente boas. Gondry mostra dois jovens que tentam a vida em Tóquio, no primeiro deles. Ele, cineasta, passa o tempo fazendo apresentações de seu primeiro filme, em busca de parceiros. Ela segue em busca de algo que lhe dê uma certa utilidade. A solução para sua busca não poderia ser mais inventiva.
Merde, de Carax, é irônico em relação aos imigrantes e às diferenças, mostrando um monstro ruivo e nojento que habita os esgotos da capital japonesa. Carax espeta até mesmo os projetos coletivos, "anunciando" novas aventuras de seu personagem em outras cidades ao redor do mundo.
Já na última parte, Bong Joon Ho faz uma crônica da solidão e do amor através da história de um homem que passa 10 anos sem sair de casa e nem fazer contato visual com ninguém. Tudo muda quando ele se apaixona pela entregadora de pizza e a partir disso decide abandonar a reclusão. Excelente.

O que resta do tempo


Elia Suleiman usa a poesia e as memórias felizes para falar do conflito Israel-Palestina nesse filme tocante. Tendo como base cartas de seu pai e os diários de sua mãe, Suleiman volta à sua Nazaré natal para contar um pouco da história de seus pais e também de si próprio. Como no não menos belo Intervenção Divina, ele surge na tela interpretando a si mesmo como um Marcel Marceu palestino, sem falas e expressões, mas com muito humor. O ator que interpreta o pai é o ótimo Saleh Bakri, de "A Banda", exibido na Mostra de 2007.

No player: La Llorona (Chavela Vargas)

Quinta-feira, Outubro 15, 2009

Paris é uma festa que não tem fim

De vez em quando a crítica aponta algum escritor espanhol como "um dos grandes desse ano", ou "um dos maiores escritores contemporâneos". O catalão Enrique Vila-Matas é um desses. Com vários livros traduzidos para vários idiomas e líderes de venda na Espanha e alguns países hispânicos, ele é dono de uma prosa ágil que mistura autobiografia, romance e crítica cultural. Terminei de ler há pouco Paris Não tem Fim e quero depois ler suas outras obras.



O livro é um relato da fase em que Vila-Matas se auto-exilou na capital francesa, nos anos 70, para dar início à sua carreira de escritor. Nesse meio tempo, viveu numa água-furtada alugada de Marguerite Duras, fugiu dos conterrâneos na Gare du Nord, teve contato com grande parte da boemia pensante que frequentava o Café de Flore, lugar preferido do casal Sartre-Beauvoir, no coração de Saint Germain-des-prés.

Uma época em que, acima de tudo, o catalão tratou de percorrer os mesmos caminhos de Ernest Hemingway em busca da mesma inspiração que, anos mais tarde, o levaram a viver na cidade e, bem mais tarde, escrever Paris é uma Festa.

Misturando seus relatos pessoais com um apurado conhecimento sobre a vida do autor norte-americano, Vila-Matas faz sua resposta Hemingway, não tão otimisma e festiva, mas profundamente inspiradora. O livro que eu li é uma bela edição da Cosac Naify, traduzida por Joca Raines Terron. Recomendo a todos.
No player: Bicycle (John Cale)

Quinta-feira, Agosto 06, 2009

Cinema do afeto

O diretor Olivier Assayas tem um carinho especial por relacionamentos ou momentos complicados. Em Clean, de 2004, ele mostra uma mãe viciada tentando se reaproximar do filho pequeno. Em Horas de Verão, seu mais recente filme, uma mulher de 75 anos sente a proximidade da morte e delega ao filho mais velho a ingrata função de dividir a coleção de arte da família, após a partida da matriarca.




A partir daí o roteiro se desenrola de forma um tanto quanto leve, sem grandes desenlances nem surpresas. O que é realmente tocante no cinema do francês é a forma com que ele trata os afetos, com um olhar sublime e, por vezes, respeitoso. Entre
os filhos de Helène há um distanciamento não apenas geográfico (Adriènne mora em New York; Jeròme, na China, e Frederic, o único que sobrou em Paris) e a câmera de Assayas vai aproximando-os aos poucos, de uma forma muito tocante. Por essas e por outras ele é considerado um dos grandes diretores da nova geração do cinema de seu país.

No player: Al is violent, all is bright (God is a Astronaut)

Sexta-feira, Julho 24, 2009

Matadores

A temática da tauromaquia sempre me fascinou. Desde criança eu ouvia histórias de toureiros famosos e corridas inesquecíveis, e achava o ritual da tourada terrivelmente fascinante. Depois que, já adulta, pude ir à plaza de toros (arena) de Las Ventas, em Madri, e ver não só a corrida, mas os bastidores desse hábito tão espanhol e entender melhor a paixão (e o ódio) que ele suscita, tal qual o futebol em nosso país. Há até alguns aspectos parecidos, como as cadeiras cativas, os torcedores apaixonados, os conhecedores exímios de cada criador que fornece os animais para as touradas. Mas há todo um lado, a meu ver, ainda mais poético e rico.

Há um tempo li Espelho da Tauromaquia, do francês Michel Leiris, um clássico para quem se interessa pelo assunto e que estava esgotado há tempos. A Cosac Naify fez uma nova edição linda, com várias fotos belíssimas. Quanto ao texto, Leiris faz uma análise dos significados por trás de todos os ritos que compõem uma corrida de touros. Um dos capítulos mais fascinantes traça um paralelo entre o amor e a tauromaquia, e como as etapas de aproximação, sedução e entrega do touro e do matador se assemelham à dinâmica do início de um relacionamento amoroso.



É a partir dessa premissa das mais interessantes que Pedro Almodóvar fez um dos seus primeiros filmes, o forte Matador, de 1986. Um ex-toureiro sofre um acidente na arena e passa a dar aulas para aspirantes à fama e, em paralelo, passa a reproduzir na cama os mesmos passes da tourada, culminando com a morte de suas parceiras. Até que ele encontra uma mulher que executa exatamente os mesmos atos com seus amantes.

Ambos se apaixonam, mas não podem ficar um com o outro, dada a inexorabilidade da morte nessa história. Almodóvar traz em cores, movimentos, ótimos diálogos e figurinos toda essa riqueza dicotômica da corrida de touros. Para mim esse é um dos melhores filmes do bardo espanhol.

Há quem diga tratar-se apenas de uma celebração da crueldade aos animais e de risco para os toureiros. Não quero entrar nesse mérito, mas para mim o fascínio maior veio dos movimentos precisos, dos passes na hora exata, nas fugas maravilhosas. Todo um universo de uma beleza plástica e significativa que sempre retumba na minha memória.

No player: Cheated Hearts (Yeah Yeah Yeahs)

Segunda-feira, Julho 20, 2009

Abandono provisório

Desde que eu me mudei para o apartamento onde hoje estou morando abandonei - momentaneamente, espero eu - alguns dos hábitos que mais me fazem bem. Ando indo bem pouco ao cinema para ver filmes que baixo no meu computador, deixei de fazer yoga e minhas leituras estão todas atrasadas, me olhando de soslaio na estante novo quarto. Tudo isso por múltiplos motivos, mas o principal é uma exaustão das mais intensas e que insiste em me acompanhar há alguns meses. Espero resolver logo isso e voltar
a me dedicar a tudo isso e também ao blog, que anda tão abandonado. Conto com a paciência de vocês, parcos e fiéis leitores.


No player: Everybody knows (Leonard Cohen)

Quarta-feira, Maio 13, 2009

À francesa

Começou hoje o Festival de Cannes. A seleção oficial desse ano traz novos filmes de diretores de respeito, como Michael Haneke (The White Ribbon), Lars von Trier (Antichrist), Gaspar Noé (Enter the void) e Ken Loach (Looking for Eric), para ficar em apenas alguns nomes.



Sem muitos latinos na lista (entre os brasileiros,
Heitor Dhalia mostra À Deriva na mostra Un Certain Regard e Eduardo Valente, fora de competição, exibe seu No meu lugar). Duro vai ser esperar até outubro, na Mostra Internacional de São Paulo, para ver essas e outras películas interessantes.

No player: Lost Boys (Shearwater)