Terça-feira, Outubro 11, 2011

Iguais, mas diferentes

Os atores Nicolas Cage, Jennifer Beals e Claudette Coulbert. O músico e cantor Tom Waits. E, mais recentemente, o maluco-que-se-acha-profeta Charles Manson. Desde a minha adolescência tenho mania de procurar nas faces da multidão semelhanças – muitas vezes forçadas, admito – com atores, músicos, celebridades e protagonistas de factoides em geral. Coisa de menina criada entre os livros, o videocassete e as coleções de discos da família toda.

Na infância, uma das professoras da quarta-série, cujo nome verdadeiro jamais me lembro, era a cara da Jennifer Beals, que vivia a operária-bailarina do já clássico Flashdance. Por muitos anos, só falava dela como a professora Jennifer. Já mais tarde, quando fazia faculdade no interior, ia para as aulas diariamente no ônibus pilotado pelo Nicolas. Na verdade nunca soube o nome dele, mas o homem magro, com um cabelo bagunçado cercando grandes entradas e olhos azuis meio esbugalhados me parecia um Mr. Cage do mundo bizarro.

Depois deles vieram a Claudette Coulbert, garçonete pouco simpática de um restaurante em Montevidéu, o Tom Waits vendedor de uma concessionária da Chevrolet e tantos outros semelhantes vida afora. O mais recente a me chamar a atenção foi o Charles Manson da Heitor Penteado, aqui na zona oeste de São Paulo.

Tomei um grande susto quando o vi pela primeira vez. Descia a rua com o som alto e alguma banda bonitinha cantando nos meus ouvidos, quando uma pessoa barbuda pula na minha frente, quase me provocando um infarto precoce. Ao perceber que seu intuito de me pregar um susto tinha sido alcançado com louvor, ele saiu andando, rindo. Filho de uma égua, pensei eu, tentando fazer com que meus batimentos cardíacos voltassem a um ritmo decente.





Dias depois, mesmo caminho. O homem de olhar assustado, barba e cabelos ainda mais terríveis interrompe minha caminhada e meus pensamentos para pedir cigarro. Não fumo, só tenho uma maçã aqui. Ele aceita, mostrando aquela ansiedade típica de fumantes em crise de abstinência.

Sigo meu caminho pensando em quem deve ser o Charles Manson da Heitor. Alguém que viveu uma desilusão amorosa e preferiu viver na rua a conviver com a grande perda. Um ex-engravatado que desistiu da competição do mercado financeiro para viver a liberdade na sua forma mais crua. Ou, menos mirabolante e possível das opções, alguém que teve dificuldades intransponíveis na vida. Uma pessoa absolutamente comum, com seus dramas, fantasmas e problemas. Uma versão menos maluca e mais real de seu sósia californiano, preso há quase 40 anos.

No player: The Hill (Bombay Bicycle Club)

Terça-feira, Agosto 23, 2011

Para L.

The past is a grotesque animal
And in its eyes you see
How completely wrong you can be
How completely wrong you can be

The sun is out, it melts the snow that fell yesterday
Makes you wonder why it bothered

I fell in love with the first cute girl that I met
Who could appreciate Georges Bataille
Standing at Swedish festival discussing "Story of the Eye"
Discussing "Story of the Eye"

It's so embarrassing to need someone like I do you
How can I explain, I need you here and not here too
How can I explain, I need you here and not here too

I'm flunking out, I'm flunking out, I'm gone, I'm just gone
But at least I author my own disaster
At least I author my own disaster

Performance breakdown and I don't want to hear it
I'm just not available
Things could be different but they're not
Things could be different but they're not

The mousy girl screams, "Violence! Violence!"
The mousy girl screams, "Violence! Violence!"
She gets hysterical because they're both so mean
And it's my favorite scene
But the cruelty's so predictable
It makes you sad on the stage
Though our love project has so much potential
But it's like we weren't made for this world
(Though I wouldn't really want to meet someone who was)

Do I have to scream in your face?
I've been dodging lamps and vegetables
Throw it all in my face, I don't care

Let's just have some fun
Let's tear this shit apart
Let's tear the fucking house apart
Let's tear our fucking bodies apart
But let's just have some fun

Somehow you've red-rovered the gestapo circling my heart
And nothing can defeat you
No death, no ugly world

You've lived so brightly
You've altered everything
I find myself searching for old selves
While speeding forward through the plate glass of maturing cells

I've played the unraveler, the parhelion
But even apocalypse is fleeting
There's no death, no ugly world

Sometimes I wonder if you're mythologizing me like I do you
Mythologizing me like I do you

We want our film to be beautiful, not realistic
Perceive me in the radiance of terror dreams
And you can betray me
You can, you can betray me

But teach me something wonderful
Crown my head, crowd my head
With your lilting effects
Project your fears on to me, I need to view them
See, there's nothing to them
I promise you, there's nothing to them

I'm so touched by your goodness
You make me feel so criminal
How do you keep it together?
I'm all, all unraveled

But you know, no matter where we are
We're always touching by underground wires

I've explored you with the detachment of an analyst
But most nights we've raided the same kingdoms
And none of our secrets are physical
None of our secrets are physical
None of our secrets are physical now

(The past is grotesque animal, of Montreal)


No player: Midnight City (M83)

Quinta-feira, Agosto 11, 2011

Pra toda a vida

Hoje me bateu uma nostalgia forte. Saudade de ter 18 anos, estar na faculdade, descobrindo um mundo que, até então, eu apenas imaginava existir. Fui estudar em Bauru, a quilômetros da família, do namorado, dos amigos e de tudo o que me era familiar e confortável. Foi uma das experiências mais marcantes da minha vida, fundamental em consolidar o que sou hoje. Atravessava as estradas do interior de ônibus, ouvindo bandas que na época eram novas – como Pixies, Sonic Youth, Nirvana, e outra de uma fase mais distante, o The Doors – nas fitinhas do meu walkman, que me acompanhou até o começo dos anos 2000.

Fiquei anos sem ouvir The Doors, em parte porque meu gosto mudou um pouco nos últimos anos, e também porque em meio a tanta variedade do que se ouvir, é natural que algumas coisas, mesmo sem querer, acabem sendo deixadas de lado. Até que hoje, movida por essa saudade, resolvi baixar cinco dos CDs da banda californiana. Fiquei surpresa em ver que ainda gosto muito deles, das letras, do clima de grande parte das músicas.

Passei o dia ouvindo cada disco e lembrando das sensações que eu tinha nas minhas viagens de ida ou de volta para a cidade na qual eu vivia naquela época. De passar por um Tietê de águas cristalinas, perto de Barra Bonita, e não acreditar que aquele era o mesmo rio que cortava São Paulo. De seguir pela Rodovia Castello Branco numa reta só, sem qualquer alteração na paisagem por muito tempo. De chorar de saudade de alguém querido que tinha ficado para trás. De ficar filosofando sobre a vida por horas e horas. De me preocupar com a minha prova de linguística do dia seguinte (essa era a disciplina mais difícil dos primeiros dois anos do meu curso de jornalismo na Unesp).

Cada melodia causou em mim as mesmas impressões. Meu preferido ainda é Morrison Hotel, o quinto disco do Doors, lançado em 1970 depois do flop de The Soft Parede (do qual gosto muito, também), mais experimental e distante da pegada bluesística dos anteriores. Algumas músicas, como Waiting for the Sun, continuam no panteão daquelas músicas se tornaram míticas para mim.



Cada vez acredito mais que é isso que faz a nossa história individual rica: os livros que lemos, as canções que ouvimos, as pessoas que conhecemos, as festas em que estivemos. Tudo o que se torna referência existência afora. Por mais que a vida nunca mais tenha sido a mesma, que eu tenha endurecido, perdido a ternura, virado profissional de rotina doida e pessoa demasiado séria em grande parte do dia, isso nunca vai me abandonar. Não tem grana e nem nada que pague essas experiências.

No player: Love me two times (The Doors)

Sábado, Julho 30, 2011

Destino

"Quem vive não pode se esconder. Devagar, tudo acontece conosco. O tempo mesquinho se contrai".
(Péter Esterházi, em Verbos Auxiliares do Coração)

Segunda-feira, Julho 11, 2011

Bolhas e sequelas

Outro dia queimei o céu da boca com sopa quente. Ou melhor, fervendo. O resultado foi aquela tradicional bolha, que dói durante dias e incomoda a cada vez que você volta a se alimentar. Até que uma hora, como por encanto, some e para de doer. Esse fato tão corriqueiro me fez pensar no quanto é rápida a regeneração e a cura dos machucadinhos do corpo. E em como os da alma, ao contrário, demoram tanto a passar.

Vivi dois anos de um relacionamento muito intenso e bonito mas, ao mesmo tempo, carregado de inseguranças e neuroses. As brigas constantes e homéricas foram minando o que tinha de bom, mas mesmo assim nunca desisti ou questionei meu sentimento por aquele rapaz. Até que, como é inerente a todos os amores, o fim veio. Chegou no momento mais triste e inadequado – existe hora adequada para sofrer? –, deixando sequelas que ainda doem e chateiam. Por mais que o tempo tenha passado e levado grande parte desse gosto amargo na garganta, em algumas situações eu estou ali, sentindo-o fortemente.

Fico aqui, dia a dia, esperando a hora em que, num passe de mágica, eu esqueça esse peso no olhar, que o enche de lágrimas e fez do meu sorriso um acessório pouco utilizado nos dias de hoje. Até a esperada hora em que eu sequer lembre como era viver com aquela bolha no fundo do meu peito, que me incomodava a cada vez que tentava ser feliz de novo.

No player: Valerie Plame (Decemberists)

Quarta-feira, Junho 29, 2011

Uma amizade incomum

Num edifício na parte mais nobre de Paris vivem famílias milionárias às voltas com suas futilidades e excessos. Em meio a esta fauna sofisticada encontra-se Paloma, uma menina prodígio de 12 anos e Renné, a zeladora. As duas se assemelham pelo gosto literário, o apego à filosofia e a sensação de não fazer parte do ambiente no qual estão imersas. Em A elegância do ouriço (Muriel Barbery, Companhia das Letras)a autora cria, através da alternância dos relatos das duas, uma forma interessante de diálogo que só acontece fisicamente quando a narrativa avança.



Li o livro para uma pauta do trabalho e fiquei surpresa com o ritmo do texto de Barbery em seu livro de estreia. O final tem um certo ar lispectoriano (que não vou comentar muito a fundo para não estragar o prazer de quem for lê-lo, claro) que traz um vazio tremendo depois de finda a leitura.

No player: Get way (Yiuck)

Sexta-feira, Maio 20, 2011

Gente diferenciada somos nós

Fiquei uns belos seis anos bastante distante do transporte público. Passei a usar táxi na maior parte do tempo e, mais recentemente, tive a infeliz ideia de comprar um carro em parceria com meu ex-namorado. Tudo isso para gastar mais grana do que deveria, arrumar desculpas para enrolar mais tempo para me arrumar e ter a sensação de que tudo estava dando certo ao redor de mim.

Até que tudo ruiu ao mesmo tempo - perdi meu pai precocemente, me separei, vendi o carro, fiquei mais dura que nunca e voltei a morar no bairro em que vivi na minha tenra juventude. Retornei a uma vida mais organizada, planejada e ao transporte público. Novamente passei a olhar as pessoas nas ruas e a me sentir parte de uma coisa muito maior que aquele mundinho no qual eu tinha entrado sem me dar conta.

Nesses espaços que são realmente coletivos, reencontrei a síntese do que é entender a cidade em que se vive. A noção que se tem de um monstro urbano com as dimensões e a diversidade de São Paulo de dentro do carro é totalmente diferente da do metrô e do ônibus, da mesma maneira que, creio, é distinta da quem cruza as ruas de bicicleta. Principalmente no metrô, têm-se a impressão de que coisas e pessoas nunca param.

Morando agora naquele bairro que abrigou na última semana uma série de necessárias discussões sobre uma possível nova estação de metrô na região, tenho pensado muito no quanto as pessoas equivocam-se tentando isolar-se. O mais legal de se viver numa cidade como a nossa é justamente poder se jogar numa vastidão de possibilidades e incertezas.

É andar na Paulista à noite com as ruas tomadas por pessoas parecidas com você. Pegar o metrô na volta do trabalho e rir sozinha das histórias da turma de meninos voltando do cursinho, ou sorrir para a senhorinha simpática que se senta ao seu lado. Aproveitar o longo tempo perdido no ônibus para colocar a leitura em dia ou ouvir o CD daquela banda incrível, mesmo espremido entre várias pessoas. Por isso acho que diferenciado mesmo é quem consegue viver tudo isso em toda a sua dimensão, dor e delícia. Sem preconceito ou amarras.

No player: After Glow (Foals)