
Como cinema bom é o que suscita esse tipo de discussão, enquanto peça cinematográfica, Ensaio sobre a Cegueira tem um grande mérito. É um filme realmente bem feito, tecnicamente falando. A questão é que Fernando Meirelles se esforçou tanto para fazer um filme que estivesse à altura da obra de Saramago que em alguns momentos ele soa pretensioso demais, limpinho demais, respeitoso demais.
Mesmo com a cidade fictícia (formada por locações em São Paulo, Montevidéu e Toronto) tomada por lixo e sujeira, o grau de degradação que o livro retrata – tanto dos lugares quanto das pessoas e das relações entre elas – está muito distante do que se mostra na tela. É como se alguns personagens tivessem sido “limpos” de algumas das suas piores características. No livro, a Mulher do Médico é, como no filme, a heroína, mas sua oscilação entre o que deve fazer e o desespero que a toma em grande parte da trama aparece de forma mais intensa. Isso só para ficar no exemplo mais paupável.
Adaptações literárias sempre geram esse tipo de questionamento, desde a Madame Bovary de Jean Renoir, rodado em 1933, e continuarão a inspirar essas reações para todo o sempre. Mas uma coisa há de ser dita: Meirelles é um cara corajoso. Sabia do risco que corria quando se lançou nessa dura empreitada de levar à tela um romance complexo. E, mesmo com todos os senões, realizou um filme memorável.
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4 comentários:
to doido pra ver!
Concordo. E acho que a atuação da Julianne Moore foi muito corajosa também, difícil ver uma atriz de Hollywood se expor tanto (e não estamos falando de um nariz postiço bobo).
Ñ vi ainda, quero ver.
Bom passar aqui.
Beijos de quem está com saudade,
Mari
tô doido pra ver. preciso ir logo antes que acabem me contando ainda mais!!!
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