Quarta-feira, Setembro 17, 2008

Entre os cegos e os caolhos

Fiquei impressionada com as divisões das opiniões sobre Ensaio sobre a Cegueira, a transposição para as telas de um grande livro da língua portuguesa. Gostei, ainda que tenha algumas críticas tanto ao roteiro e à fotografia do ótimo Cesar Charlone. A discussão em torno do filme se dividiu entre aqueles que crêem se tratar de uma adaptação perfeita e a turma que, como eu, vêem no filme um excesso de esforço em se manter fiel à obra que acaba, desgraçadamente, por distanciá-los ainda mais.



Como cinema bom é o que suscita esse tipo de discussão, enquanto peça cinematográfica, Ensaio sobre a Cegueira tem um grande mérito. É um filme realmente bem feito, tecnicamente falando. A questão é que Fernando Meirelles se esforçou tanto para fazer um filme que estivesse à altura da obra de Saramago que em alguns momentos ele soa pretensioso demais, limpinho demais, respeitoso demais.


Mesmo com a cidade fictícia (formada por locações em São Paulo, Montevidéu e Toronto) tomada por lixo e sujeira, o grau de degradação que o livro retrata – tanto dos lugares quanto das pessoas e das relações entre elas – está muito distante do que se mostra na tela. É como se alguns personagens tivessem sido “limpos” de algumas das suas piores características. No livro, a Mulher do Médico é, como no filme, a heroína, mas sua oscilação entre o que deve fazer e o desespero que a toma em grande parte da trama aparece de forma mais intensa. Isso só para ficar no exemplo mais paupável.

Adaptações literárias sempre geram esse tipo de questionamento, desde a Madame Bovary de Jean Renoir, rodado em 1933, e continuarão a inspirar essas reações para todo o sempre. Mas uma coisa há de ser dita: Meirelles é um cara corajoso. Sabia do risco que corria quando se lançou nessa dura empreitada de levar à tela um romance complexo. E, mesmo com todos os senões, realizou um filme memorável.

No player: I lust you (Neon Neon)

4 comentários:

Túlio disse...

to doido pra ver!

Ana disse...

Concordo. E acho que a atuação da Julianne Moore foi muito corajosa também, difícil ver uma atriz de Hollywood se expor tanto (e não estamos falando de um nariz postiço bobo).

meu banzo disse...

Ñ vi ainda, quero ver.

Bom passar aqui.

Beijos de quem está com saudade,

Mari

Serjones disse...

tô doido pra ver. preciso ir logo antes que acabem me contando ainda mais!!!